O encanto de Vanessa e a rabugice de Darth Vader

Logo que vi a chamada para “Conduzindo Miss Daisy” no teatro aqui, dei um jeito de comprar o ingresso. E comprei logo pro dia da estreia. Lembro de ter dado cinco estrelas pro filme na época (nunca mais revi) e com Vanessa Redgrave no papel-título, não precisava de mais nenhum convencimento.

Gostei da peça, mas não me tocou nem um décimo do que lembro do filme, com exceção do final. Talvez por não estar em um lugar muito bom no teatro, ou talvez por ter perdido alguns diálogos naquele sotaque insuportável de caipira americano. Mas foi com certeza uma honra ver ela e James Earl Jones no palco.

Tá, confesso: acho James Earl Jones um daqueles que todo mundo respeita pela idade e tal (completou 80 anos este ano), mas que não enche uma mão de papeis realmente marcantes no cinema ou TV. Pra ser bem sincero, lembro mais dele como a voz de Darth Vader e do Rei Leão do que por qualquer filme. E não vi aquele que deu a única indicação ao Oscar pra ele (The Great White Hope, de 1970).

Já de Mrs. Redgrave sou fã de longa data. Desde Blow Up (que acho um saco, mas ela tá demais). Adoro Retorno a Howards End, O Amor Não Tem Sexo, Julia (Oscar!), Jogo Perigoso (que ela faz a tenista que se traveste de homem), aquele tristíssimo das lésbicas, Atonement, tantos outros… até no primeiro Missão Impossível ela tá ótima. E continua muito na ativa: vou ver dois filmes dela no London Film Festival mês que vem, pelos quais anda recebendo muitos elogios e até buzz para o Oscar – Coriolanus, de Ralph Fiennes, e Anonymous, de Roland Emmerich, neste último fazendo a Rainha Elizabeth I.

Pois bem. Dessa vez fui sem pretensão de qualquer “encontro” (diferente do que aconteceu com a Ellen Burstyn). Primeiro porque era noite de estreia, e esperava muita confusão e confete. Depois porque tinha a ideia dela como uma pessoa difícil e inacessível. Li há pouco uma entrevista na qual a repórter contava como ela teria sido ríspida e monossilábica, sem dar muita trela pra perguntas pessoais. Daí pensei: “ah, ela vai passar reto e nem dar bola se tiver alguém na volta dela”.

Saí do teatro e fui dar uma espiada na porta dos fundos pra ver o clima. Já tinha umas 10 ou 15 pessoas esperando. Ah, não resisti e fiquei ali também. Nem tinha levado caneta pra autografar o programa da peça nem nada (mas câmera sim, nunca se sabe…). Dali a pouco sai um guri dizendo a todos que quem estivesse ali à espera de James Earl Jones, que ele não iria parar para autografar nem falar com ninguém. Se quisessem, poderiam deixar o material que ele mandaria por correio depois (oi?).

Depois de uns 40 minutos de espera, Vanessa sai, com seu passo lento, mas com um sorriso já imenso. A voz pausada, um pouco cansada, um óculos bem grosso, toda enroupada (com umas botas de lã) e com muita, mas muita simpatia. Atendeu um por um. Sem exceção. Alguns malas com três programas e mais um bloquinho pra assinar. E uma ou outra foto. Pra cada uma delas, ela tirava o óculos e posava sorrindo.

Pedi emprestada a caneta da vizinha e pedi um autógrafo na capa do programa.

– “Can you make it to Rodrigo, please?”
– “Rodrigo”?
– “Yes, please. Too hard to spell”?
– “No, absolutely”.

Como tinha pouca gente mais pra assinar, não resisti e pedi uma foto. Uma guria do lado se ofereceu pra tirar. Depois de batida, eu agradeço bastante a atenção e ela aponta para a minha câmera:

– “Is it all right? Check if it´s good”.

Dá pra acreditar? Uma atriz deste porte, no alto de seus 74 anos, com o grau de sofrimento familiar que essa mulher teve recentemente, depois de uma noite de estreia e casa lotada em Londres, gasta tempo perguntando se a foto estava boa o suficiente?

Apaixonei né… Mais ainda quando, antes de ir embora, a mãe de uma cadeirante pede pra tirar uma foto com ela também. Ela vai até a mulher e simplesmente se ajoelha no chão para ficar na altura da cadeira. Emocionante. Na mesma hora, vem saindo James Earl Jones, de cabeça baixa e sem olhar pra ninguém. Nem a mulher nem a mãe pedem, mas sim Vanessa grita por ele para tentar agradar à menina. “Jim? James? Hey James? It´s me, Vanessa”, grita, tentando fazê-lo parar de caminhar. Algum assistente teve que chamá-lo pelo braço pra dizer que era a colega de elenco quem estava chamando e não “um qualquer”. “Can you come for a picture with this lovely lady?”. “Mmm not really… but I´ll go anyway”, disse o velho gordo ao notar que era uma moça numa cadeira-de-rodas. Chegou lá, não se abaixou, sorriu e tirou a foto com a fã. Depois seguiu pelo mesmo caminho de antes, não sem antes ignorar uns 2 ou 3 pedidos de fotos e autógrafos.

Dá pra sentir a diferença? Velho mala. E só pra acrescecntar: achei ele caricato e berrão na peça. Bem diferente de Mrs. Redgrave, que deu um banho. Aprende Darth Vader!

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