Meu namoro com Scorsese

E depois tem gente que diz que em Los Angeles a “oferta” ainda seria maior; que o “acesso” aos grandes nomes do cinema seria ainda mais vasto. Eu duvido e muito. Se tem uma coisa que Londres sabe é ser acessível. Todos os filmes, todos os festivais, todos os eventos e, por consequência, todos os talentos estão ao acesso de qualquer mortal. Na maioria das vezes em troca de um punhado de libras, é verdade, mas em tantas outras, nem disso precisa. Nunca fui a LA, mas eu custo a crer que lá o seguinte diálogo (real) seria possível:

– Oi, que vai fazer hoje à noite?
– Ah depois que sair do trabalho, vou passar para ver o Scorsese.

Oi?
Sim, Scorsese. Martin Scorsese. One of the greatest ali passando para quem quisesse ver, ouvir, falar, pedir um autógrafo e, para os mais abusados, até uma fotinha para a prosperidade.

Essa semana acho que concluí meu “namoro” com Marty, que durou pouco mais de um ano. Durante a fase Hugo dele, ficou bastante tempo por aqui, e os cinéfilos londrinos puderam se esbaldar com Vossa presença em ocasiões variadas. Comigo, foram nada menos que TRÊS encontros.

Marty & Thelma Schoonmaker falando sobre Peeping Tom em novembro passado

Meu primeiro date com o mestre foi em novembro do ano passado. Era uma sessão especial da versão restaurada de Peeping Tom (A Tortura do Medo, de 1960), dirigido por Michael Powell e, cujo processo de restauração foi encabeçado pelo próprio Scorsese. Ele falaria sobre a importância do filme, acompanhado da sua editora, amiga de longa data e viúva de Powell, Thelma Schoonmaker, mais a atriz principal do filme Anna Massey (que acabou falecendo meses depois) e o filho de Powell, Columba, que fez uma ponta no filme.

Miniautógrafo no DVD de Os Infiltrados (junto com o de Mark Wahlberg)

Bom, além de descobrir este clássico (que nunca tinha visto e é, sim, impressionante até hoje), não é preciso dizer que foi uma aula sobre preservação de filmes, a carreira de Michael Powell (da dupla com Emeric Pressburger) e do tanto que influenciou a carreira de Scorsese. Clichês à parte, foi emocionante ver aquela lenda viva (sic) ao vivo, falando com tanto entusiasmo e propriedade sobre cinema. Na saída, uma minimuvuca de fãs pedindo autógrafos, especialmente para um espaço pequeno como o Curzon Soho. Tinha levado meu DVD de The Departed para tentar algo, mas sem muitas expectativas. Acabou que, com muito esforço e empurrões, consegui um meio-autógrafo ou alguns rabiscos de próprio punho do mestre, que foi forçado para dentro do elevador pelos seguranças (e quase leva minha caneta da sorte). Nada mal para uma primeira vez.

Mas o segundo encontro é sempre o que define uma relação, certo? Pois se o talk do Peeping Tom foi uma aula, o “Bafta: A Life in Pictures” com ele, em dezembro passado, foi um curso de pós-doutorado completo. Sabe o que é ver alguém falar sem parar por mais de uma hora e ficar sem fôlego? Entenda bem: EU fiquei sem fôlego, não ele. Testemunhar a paixão que ele tem ao falar de cinema, ao mencionar tantos títulos antigos, diretores obscuros, editores, fotógrafos, compositores americanos E estrangeiros como quem declama itens de uma enciclopédia, foi nada menos que fascinante.

Marty Marty...

Esses eventos da Academia britânica – onde os convidados são entrevistados no palco, em meio a clipes de sua carreira e depois perguntas da plateia – têm acontecido com frequência (já fui a alguns, como do Colin Firth, Ben Kingsley, Charlize Theron, Peter Weir, Viggo Mortensen, Gary Oldman, Philip Seymour Hoffman), mas esse foi o ponto alto, sem dúvida, e ainda não creio na sorte que tive de conseguir ingresso. Mas não tanta sorte de ter conseguido chegar até os bastidores do Bafta, com a ajuda de uma senhora italiana membro da Academia, que sentou do meu lado e dei um jeito de acompanhá-la após o encerramento. Dessa vez, não era permitido tirar fotos, mas fui com um objetivo que, felizmente, consegui cumprir: levar o DVD de Goodfellas para ser autografado pelo mestre. Mas não pra mim, mas sim pra ele. Sim, tive a petulância de largar um “Mr. Scorsese, can you make it ´To Fernando´ please?” Sou ou não um bom amigo?
*PS: dá para ver essa entrevista na íntegra (com direito a este próprio que vos escreve em uma ou duas imagens) no site do Bafta. Muito mais do que recomendado.

Daí chegamos a última (acho) etapa desse namorico. Não pude ir à première Real de Hugo (com direito a Príncipe Charles), mas vi que Marty iria participar de um evento dois dias depois no BFI lançando a versão restaurada de Coronel Blimp – Vida e Morte (1943, novamente de Powell & Pressburger). Além de ter descoberto o evento tarde, o ingresso custava £16 e então decidi pular este. Mas, como resistir à tentação de ver o tio mais uma vez de pertinho? A ideia era mesmo só ver a movimentação, sem grandes enforços (ou nada para ser assinado). Enquanto os caça-autógrafos iam se aglomerando e acabaram sendo ordenados numa fila atrás de uma barreira, eu fiquei sentadinho num sofá do lado oposto, só assistindo de camarote. Estava com a câmera e pretendia no máximo fazer um vídeo daquilo (como o fiz).

Depois de fazer a introdução do filme (novamente acompanhado de Thelma Schoonmaker), ele sai para atender os que estavam à espera dele e comprova o que todo mundo já sabia: o cara é um poço de simpatia, de generosidade, de humildade. Atendeu um por um dos autógrafos. E mais: começou a atender os pedidos de fotos também, com a assessora pegando as câmeras e fazendo as fotos. Ah não deu outra: ao ver aquilo, pulei do sofá em direção a tal fila e fiquei ali à espera da minha vez. Como era o último e perto da porta de saída, quase perdi a chance pois foram encaminhando ele pra fora, mas a assessora fez questão de pará-lo e apontar que eu estava ali esperando pela foto. Prontamente: olhou no foco, sorriu pra câmera, sorriu pra mim e foi embora. Não rolou beijo nem abraço, é verdade :p Mas quem poderia pensar em reclamar de alguma coisa depois disso tudo?

E para celebrar nosso contato imediato de terc… ah não, Spielberg não!… fui ver Hugo no dia da estreia. E me abalei até o O2 para ver na tela Sky Superscreen do Cineworld de lá, a maior da Inglaterra, creio eu. Afinal, o primeiro 3D do mestre merecia tratamento de primeira. Ahhh e como valeu. Minhanossasenhoradosprojetores, o que foi aquela experiência? Nem Cameron, nem Spielberg, nem ninguém usou o 3D até hoje como Mr. Scorsese. Aos 69 anos, e mais de 40 anos de carreira, o cara se aventura na “modernidade do momento” e arrasa com todo mundo. NADA na tela é gratuito, forçado, fora de propósito. Os olhos se enchem no momento preciso, as cores brilham na cena exata, e nada da história é alterada ou prejudicada por causa deste “recurso extra”, tãããão diferente de (quase) tudo que se vê em 3D hoje em dia.

Só Scorsese para mostrar como usar o 3D

E o filme? Ah uma delícia completa, como já esperava. É feito para quem gosta de cinema, entende de cinema, estuda cinema, se encanta pelo cinema. Ou seja, Scorsese fez o filme para ele próprio, e isto está estampado na tela: não são poucas as “pausas” que ele faz na narrativa para ilustrar os primórdios da sétima arte. Isto até dá uma arrastadinha na história vez por outra mas, de novo, quem gosta de verdade de cinema, não há de se incomodar nem um pouco. Eu só fico imaginando o prazer que ele teve durante a feitura deste filme… possivelmente as brincadeiras dele quando criança, só que agora trocando as caixas de papelão por câmeras 3D de uma tonelada.

E depois de “conhecer” esta figura de perto, não me espanta nem um pouco ele ter feito um filme tão família. Não é nem um pouco infantil, e ao mesmo tempo espantosamente distante de seus titulos estigmatizados pela violência e dureza. Hugo é, na verdade, inocente, pueril, doce, mágico. Exatamente – para surpresa de tantos – como seu criador na vida real.

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2 Comments

Filed under Famosos

2 responses to “Meu namoro com Scorsese

  1. Depois de tudo q li vou esperar pra assistir no cinema…
    Abraços

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  2. halalson

    …amigo pra vida!

    thanks again, mate.

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