Almodóvar + Burton + Lee + Hopkins + Tarantino = mindfuck!

Bafta mindfuck

Logo que acaba o London Film Festival, no finalzinho de outubro, costuma dar aquela leve de depressão… de quem viu tanta coisa e tanta gente boa duma vez só, que parece o ano termina mais cedo para os cinéfilos londrino. Mas ô como foi diferente este ano… o tal do BAFTA resolveu mostrar serviço e tem promovido um evento mais fudido que o outro desde então. Agora me explica, como que um pobre cinéfilo do interiorrrrr rio-grandense consegue resistir a um quarteto de diretores do naipe de Pedro Almodóvar, Tim Burton, Ang Lee e Quentin Tarantino num intervalo de três semanas? Mais um tal de Hannibal LecterAnthony Hopkins (com direito a foto pra posteridade) pra coroar? Ah e conta cruzar com o Fernando Meirelles uma noite pelas ruas de Londres e trocar algumas palavras? É, Galvão, haja mesmo…
PS: não são permitidas fotos nestes eventos, então a maioria aqui são de divulgação do Bafta (fora as que eu “roubei” ou tirei na saída) – tem uma galeria lá no final do post. No caso do Tarantino, nem que eu quisesse, já que os telefones foram recolhidos antes da sessão!

PEDRO ALMODÓVAR

Pedro e sua jaqueta megacool

Pedro e sua jaqueta megacool

Foi meio que um ciclo – assim como o “meu caso com Scorsese“. Primeiro o vi apresentando rapidamente A Pele Que Habito numa sessão deslumbrante a céu aberto no verão passado. Depois, há uns dois meses, vi Marisa Paredes e Antonia San Juan falando sobre as experiências de trabalhar com ele, num evento parte do festival de cinema espanhol que incluiu filmes antigos dele. E agora, ele foi o autor da prestigiadísima Bafta Annual Film Lecture, na qual finalmente pudemos vê-lo e ouvi-lo sobre seus filmes, sobre o que o incentiva, o que o inspira… Com sua jaqueta psicodélica e sua mistura esfuziante de inglês com espanhol, foram duas horas de, pra não fugir do clichê, puro êxtase.
All About Eve (A Malvada) influenciou e muito sua carreira, pois sempre foi fascinado pelo universo das mulheres e do teatro. A cena que mostrou de Tudo Sobre Minha Mãe foi a de mãe e filho justamente assistindo e comentando o filme na TV da sala. Outro filme que ilustrou foi Opening Night (Noite de Estreia), de John Cassavetes, com uma cena espetacular de Gena Rowlands que deu muitíssima vontade de correr e achar este filme.

Com direito a autógrafo na saída!

Com direito a autógrafo na saída!

Grande parte de suas histórias e personagens vêm de situações de sua infância e adolescência, ou que viu ou que ouviu de sua mãe e avó (que adoravam “enfeitar“ a realidade com um puco de ficção), incluindo a mãe-fantasma de Volver. Outros trechos que escolheu para falar foram de Sonata de Outono (Bergman) x De Salto Alto; e da ficção O Incrível Homem Que Encolheu (1957) que serviu de modelo para a inesquecível cena do “Amante Minguante” de Fale com Ela.
Contrário ao que eu imaginava pelo menos, ele não costuma escrever papéis para determinados atores. Depois de escolhidos, aí sim ele passa para o processo de adaptar o roteiro a eles, tanto que muda diariamente falas e posições cênicas, baseados na personaldade deles.
Duas surpresas: no final da palestra, Miranda Richardson sobe ao palco para entrega o Bafta de melhor filme estrangeiro do ano passado para A Pele Que Habito – e ele não perde a chance de fazer um discurso como se estivesse na cerimônia, homenageando o irmão e longo parceiro Agustín. E, como se ainda precisa de mais algo pra tornar aquela noite inesquecível, ainda descolo um autógrafo do mestre na saída. Dormir depois é que custou…

TIM BURTON

Tim Burton

Tim Burton

Ainda que ultimamente ande implicando um pouco com ele – especialmente pela repetição desnecessária dos (pen)últimos trabalhos com Johnny Depp – não há como não reverenciar o cara que nos deu Edward Mãos de Tesoura, Beetlejuice, Ed Wood, a Mulher-Gato de Michelle Pfeiffer, e tantos outros.
Então foi um prazer rever a carreira pelos olhos do próprio que, sim, é tão esquisito quanto se pode pensar. Solta umas risadas do nada, fica pensativo, dá umas pausas, gagueja… mas também fala com o maior carinho sobre seus ídolos inspiradores – Roger Corman, Ray Harryhausen, Christopher Lee, Vincent Price – e mostra o quanto realmente gosta de cinema.
Dentre as histórias que contou, disse que improvisou quase tudo em Beetlejuice (e que tinha idealizado Sammy Davis Jr. para o papel principal!). Que hoje ele ri quando lembra que falavam que seus dois Batman eram muito “dark” – hoje parecem contos de fada da Disney comparado aos de Nolan. Que quando fez Marte Ataca! (que era pra ser animação também) estava passando por “estranhos momentos” na vida – “deveria ter ido ao psiquiatra, ao invés de ter feito o filme”. E que fica surpreso ao saber o quanto O Estranho Mundo do Jack é popular e virou cult no mundo tudo, mas descarta a ideia de trazer Jack de volta em outro filme.

Ang Lee

Ang Lee

ANG LEE

Sou fã de Ang Lee desde os idos de O Banquete de Casamento e Comer Beber Viver. Acho absolutamente admirável como ele passeia magistralmente entre os gêneros – dos seus filmes, só não vi Cavalgada com o Diabo, mas gosto de todos os demais – incluindo o Hulk (totalmente injustiçado, a meu ver).
Tímido, gentil e educadíssimo, ele se mostrou também muito sensível e eloquente ao falar sobre a carreira e suas influências. A começar de quão estranho e inadequado se sentiu no set de Razão e Sensibilidade, seu primeiro filme fora de Taiwan – Emma Thompson ajudou bastante (“ao mesmo tempo intimidante e carinhosa“).

Ang Lee, sempre sorrindo

Ang Lee, sempre sorrindo

Brincou que o então revolucionário O Tigre e o Dragão comparado com o que faz agora, parece brincadeira de criança. Os técnicos de efeitos especiais de Hulk (um filme pelo qual ele também tem muito carinho, aliás) perguntaram como ele fez para fazer os atores ficarem suspensos nos bambus: “Exatamente isso, coloquei eles em cima de bambus“. Também se mostrou bem safadinho em algumas horas. Sobre a cena de Michelle Yeoh e Zhang Ziyi lutando com espadas: “foi um sonho ver duas mulheres lutando por um símbolo fálico”.
Na triste cena de O Segredo de Brokeback Mountain, não teve quem não suspirou e se emocionou de novo (incluindo ele e entrevistadora Francine Stock). E o novo Life of Pi consumiu muitos fios de cabelo dele, foi um trabalho sem iguais proporções até então, mas do qual ele se orgulha muito. Mal posso esperar por este e pelos próximos projetos dele.

ANTHONY HOPKINS

Anthony Hopkins

Anthony Hopkins

Ok, este não é exatamente um “diretor” para seguir na mesma linha (apesar de já ter passeado lá – Outono de Paixões é bem fraquinho, diga-se, e ele próprio diz que não pretende voltar atrás das câmeras), mas seus 45 anos de carreira valem por qualquer aula de cinema.
Com uma memória invejável para detalhes, contou história ótimas, como a de como teve que pedir permissão de Laurence Olivier para se ausentar do grupo de teatro do qual participavam em Londres para fazer sua estreia no cinema (O Leão no Inverno, em 1968).

De que não gosta de ensaios e tem como única “técnica” decorar exaustivamente seu texto para depois, se for o caso, improvisar e ficar à vontade para mexer nele.

Dr. Lecter ali, dando sopa... como resistir?

Dr. Lecter ali, dando sopa… como resistir?

E de quando ouviu pela primeira vez o título The Silence of the Lambs perguntou ao agente se estavam convidando ele para fazer uma história infantil. Disse que, assim como o problemático Richard Nixon ou o introspectivo Stevens de Vestigios do Dia – ele entendia e se identificava com Hannibal Lecter (“não que eu seja que nem ele”) – e toda a plateia arregala os olhos neste momento, mas não tanto quando ele refaz uma das falas do filme, com aqueles mesmos olhos e voz pausados de Dr. Lecter. Nenhum pelo do corpo permaneceu inerte neste momento.
Muito mais bem humorado do que se podia esperar, fez muitas piadas e diversas imitações – Michael Caine, John Gielgud, Hitchcock (claro) e até de um cachorro – ele gostava de quebrar o gelo quando o set está muito tenso, dando umas latidas bem alto! 75 anos de idade, senhoras e senhores, e que exemplo!

QUENTIN TARANTINO

Daí tu acorda de manhã e vê o corpo todo empipocado de bolinhas vermelhas, coçando que é uma tristeza – clara reação alérgica a alguma comidinha sapeca. Eis a dúvida: rumar ao posto médico, antes que piore, ou ter a chance única de ver e ouvir, de muito perto, um dos teus diretores/roteiristas/autores/gênios preferidos? Nem que fosse de maca, mas não perderia a tal “Fan Interview” promovida pela Yahoo com Mr. Tarantino.

Foto meramente ilustrativa, porque... né?

Foto meramente ilustrativa, porque… né?

Sim, numa sala com umas 50 pessoas, estava lá aquele tiozinho meio barrigudo, de óculos e que já fala em se aposentar em breve. O velho Taranta tá perdendo o ritmo e o gás? Nenhum pouco. Falou muito, com gosto, daqueles que dominam o assunto e adora falar sobre si mesmo (sorte de nós fãs tietes!).
Perguntado sobre suas preferências, não hesitou: herói/heroína preferida de seus filmes? The Bride! Vilão favorito? Bill! Maior “diva” com a qual trabalhou? Uma! “Acho que Kill Bill é mesmo meu filme mais bem acabado… ainda que não tenha feito ele para ser dois filmes… isso a gente decidiu fazer depois pra tirar o dobro de dinheiro de vocês!”. Honestidade tarantinesca em nível máximo.
Dentre as pérolas que soltou, estão o fato de que ele tem certeza que andaram lendo uma história que ele escreveu tempos atrás, onde estaria o exato diálogo que o vilão Javier Bardem discursa para James Bond em Skyfall (a fábula aquela do rato). E que quando viu O Balconista, do Kevin Smith fazendo sucesso pensou “quê? eu tenho esse filme lá na minha garagem!”.
A melhor parte: perguntado sobre quais são seus “guilty pleasures”? Em termos de filmes, comédias românticas bem hollywoodianas – ok, ele não assiste em casa nem no cinema, mas dentro de um avião ele vai direto nos filmezinhos mais bobocas, de preferência estrelados por Kate Hudson ou Matthew McConaughey (chorou feito bebê com Minhas Adoráveis Ex-Namoradas”). E na música? as boybands! (“Howie sempre foi meu favorito”). Legend!

Mais fotinhas dos eventos (clique para ir à galeria):

Bafta: A Life in Pictures 2012
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